Ana Sá Lopes
Sócrates ia afrontar o poderoso lobby das farmácias, acabando com o monopólio da venda de medicamentos. Esta foi a notícia que saiu do primeiro discurso do novo chefe de Governo, abençoado por uma maioria absoluta mas perseguido por um fantasma perturbador que importava a todo o custo apagar: o fantasma do guterrismo, das suas indecisões, atrapalhações e cedências a tutti quanti.
Sendo José Sócrates um guterrista de afeição – apoiou sempre sem hesitações o seu padrinho político, que o “descobriu” no círculo de Castelo Branco e o promoveu dentro do aparelho do Partido Socialista – era difícil que a poderosa marca guterrista, a da indecisão, não lhe estivesse colada.
É certo que, a seu favor, José Sócrates tinha a sua “determinação” ou “teimosia” (como lhe preferem chamar os detractores) já revelada no Ministério do Ambiente.
Mas não chegava: para varrer definitivamente as lembranças do seu pai político e proceder a uma espécie de corte epistemológico com o guterrismo, era preciso uma estratégia de propaganda eficaz: nasceu assim a operação “afronta dos lobbies”, inaugurada no discurso de posse com a notícia que haveria de seduzir o país e “humilhar” o poderoso João Cordeiro, presidente do lobby das farmácias. A operação foi um sucesso, a imagem do homem-que-faz-tremer-os-lobbies colou-se à personagem Sócrates, para quem tudo, muito graças a isso, foi correndo no melhor dos mundos.
Um ano mais tarde, na Primavera do ano passado, o Governo e as farmácias assinam um acordo de paz cujos contornos nunca foram muito claros para o grande público. As consequências estão à vista: as farmácias passam a ter, agora, novas “regalias”, pequenos centros de saúde que aplicam vacinas e fazem exames. Que lindo lobby.