Ex.mos Membros do
CNMI
É um médico especialista que vos escreve. Afirmo-o sem receio de que a minha carta possa ser rotulada como reflectindo interesse corporativo. A minha carta trata de factos facilmente demonstráveis, pretende meramente defender uma adequada distribuição de recursos do País e é uma posição que espero útil de um espectador atento.
Temos assistido, nos últimos anos, ao aumento exponencial nas vagas nas Faculdades de Medicina. O pico de licenciados ainda está longe de se atingir, mas já se começam a desenhar graves dificuldades na formação pós-graduada, nomeadamente nas especialidades cirúrgicas.
PORTUGAL NÃO TEM, MESMO ACTUALMENTE, QUALQUER FALTA DE MÉDICOS.
O aumento do numerus clausus, há alguns anos sugerido no livro branco para a formação nas áreas da saúde, de modo a colmatar o hiperbolizado problema da aposentação da actual "geração dos 50 anos", já foi largamente ultrapassado. Os decisores políticos, por mera ignorância ou mais provável populismo, não percebem ou fingem não perceber a necessidade de aguardar que os alunos terminem a sua longa licenciatura; neste momento já seremos, dentro de 3-4 anos, avassalados por cerca de 1300 licenciados das Faculdades Nacionais a que acrescem 500-700 licenciados que só nessa altura comecarão a chegar por terem feito a sua Licenciatura em Faculdades de Medicina estrangeiras (Espanha e Países de Leste). Com estes quadro (seguramente 2000 licenciados ano, de forma sustentada, dentro de poucos anos), basta olhar para os números da demografia Médica para perceber que todos os anos se formarão mais médicos do que os que se reformam INCLUINDO DURANTE OS ANOS DE REFORMA DA TÃO REFERENCIADA GERAÇÃO. O número de Médicos em Portugal vai portanto aumentar continuamente e brevemente de forma exponencial.
Caminhamos assim alegremente para o mais que evidente desemprego médico. Mesmo que considerássemos que actualmente existem zero médicos, bastaria o simples exercício mental de multiplicar 2000 licenciados por 40 anos de trabalho (altura em que se começariam a reformar os mais velhos), para que tivessemos, no fim desse período, o absurdo número de 80.000 médicos!! No entanto neste momento não temos zero médicos, a verdade é que já temos um número, que ajustado à população, é dos maiores da Europa (cerca de 30.000). O EXCESSO OCORRERÁ PORTANTO EM MENOS DE 10 ANOS!
É neste quadro, já de si calamitoso, que vejo o Ministro da Ciência e do Ensino Superior garantir que vai aumentar ainda mais o numerus clausus e que pondera inclusivamente estabelecer protocolos com faculdades estrangeiras! Estará tudo louco?!!
Alguém tem que explicar ao Senhor Ministro que deve esperar alguns anos para que se vejam os resultados dos incríveis aumentos do numerus clausus que já ocorreram nos últimos anos. Nem que se aumentasse hoje o numerus clausus para 10.000 se teriam mais médicos antes de 6 anos, ou especialistas antes de 12 anos. Será isto difícil de compreender?
O desemprego médico, escusado será recordar, é não só um enorme e dramático desperdício de recursos públicos naquela que é a licenciatura que mais impostos consome por aluno, como originará o inconmensurável drama do desemprego em pessoas que dedicam 12 anos de intenso trabalho e estudo até serem especialistas e que têm portanto legítimas expectativas de realização profissional. Esta é aliás obviamente uma manobra orquestrada pelas orientações do anterior Ministério da Saúde por forma a obter mão de obra barata, massificada e sem qualidade, pressionado que estava pelos grupos que apostam na área da saúde.
Desenha-se um quadro dramático que terá repercussões difíceis de imaginar na profissão médica e que, mais importante, IMPOSSIBILITARÁ uma formação pós-graduada de qualidade mínima. Qualidade não é compatível com o que se avizinha.
Espero que o elevado patrocínio dos membros do CNIM contribua para a correcção desta disparatada deriva.
Com os melhores cumprimentos,
P. Cordeiro